Catálogo V Agulhas da Alta Moda Brasileira Publicação comemorativa de 40 anos da APAE (2001)
L'emigration
Ao ser convidado para escrever um texto sobre minha situação de imigrante no Brasil, de repente eu tomei consciência desta realidade: sou de fato um imigrante. Nunca tinha me interrogado a respeito disso, principalmente por achar que a palavra imigração se referia a um movimento de massa, ou grupo de gente, e não a um deslocamento individual ou solitário. As razões dos movimentos imigratórios, em sua maioria, são decorrentes de fuga por causa de guerra, do êxodo, por razões econômicas, falta de emprego, falta de alimentos, ou conseqüência de uma catástrofe natural, frio, dilúvio, epidemia etc. No que me diz respeito, minha decisão de vir para o Brasil foi puro prazer. Vim como turista, em dezembro de 1979. Tinha 20 anos de idade, e a descoberta deste país, desta cultura e da sua juventude fizeram nascer o meu desejo de ficar, viver e criar minha família aqui. Eu nunca tomei realmente consciência desta realidade, devido à minha origem francesa – cultura que até hoje utiliza esta denominação com um certo desdém, por ter uma certa conotação pejorativa: Les Émmigres.
Esta colocação é própria dos países europeus antigos, cuja sociedade se orgulha de sua história, banhada no sangue derramado nas inúmeras guerras por território. Ao contrário dos países de culturas diferentes como o Brasil – formado pela mistura de povos -, a palavra imigração, apesar de ter o mesmo significado, é utilizada de forma bem diferente.
Uma das maiores ondas de imigração que ocorreu na França, aconteceu logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. As cidades destruídas pelos bombardeios alemães precisavam ser reconstruídas, e então, iniciou-se um grande movimento imigratório de mão-de-obra especializada e barata, vindo dos países europeus vizinhos e mais pobres.
Eles vinham principalmente da Itália, da Espanha e de Portugal. Cada uma dessas comunidades tinha suas especialidades. Os portugueses e os espanhóis eram excelentes pedreiros, e suas mulheres, empregadas domésticas ou zeladoras. Os italianos eram ótimos gesseiros e, por tradição, sapateiros maravilhosos. Havia também uma forte imigração vinda da antiga Colônia Algeriana. Mão-de-obra esta, delegada às tarefas menos gloriosas como, por exemplo, operários das linhas de montagem de automóveis, catadores de lixo etc.
Todos eles eram muito bem-vindos para nos ajudar a remontar a nossa economia mas, no que diz respeito à integração deles na sociedade, as coisas eram bem diferentes.
Falar deste assunto fez minha memória despertar, e iniciei um longo trajeto no passado, voltando para uma época da minha vida que tinha quase sido esquecida.
Livry-Gargand, 1964
Eu tinha seis anos de idade e meu pai, um jovem médico clínico geral – anestesista -, comprava a primeira casa da família. Era uma enorme propriedade, onde a grande casa burguesa era plantada no meio de um parque cheio de árvores. Em volta dela, havia 3 retângulos de grama, bordados por uma cerca de pereira que, todo ano, no outono, nos oferecia frutos maravilhosos.
Os antigos proprietários eram grandes comerciantes de especiarias na capital e, durante muitos anos, as paredes do sótão ficaram impregnadas desses aromas maravilhosos que se espalhavam muito delicadamente pela casa toda. Uma viagem...
Nesta época, tive o meu primeiro e verdadeiro contato com esses indivíduos chamados emigrés. Começou com Olivia, uma generosa portuguesa dona de um magnífico bigode, e que foi a primeira pessoa que meus pais contrataram para cuidar da casa e da gente. O seu marido, o Manuel, trabalhava numa casa de construção, ao lado, e tinha fabricado uma pequena churrasqueira para que, todas as sextas-feiras, a Olivia pudesse nos preparar as famosas sardinhas grelhadas. Cena inesquecível e pitoresca.
Mas o meu maior contato com os imigrantes foi com o meu pai. Sendo eu o seu primeiro filho, ele sonhava em me ver seguir os seus passos: ser médico.
Toda quarta-feira era dia sem escola e ele me levava para o seu consultório que ficava em La Courneuve, cidade de Banlieue ao norte de Paris. Esta região era, e continua sendo, um gueto para os imigrantes de todas as origens. O Dr Anquier atendia toda a população dos conjuntos habitacionais ao redor.
De manhã tinha hora marcada no consultório, e à tarde tinha visitas nas casas das pessoas que não podiam se locomover por causa de doenças. Eram de 3 a 4 horas de andanças pela citées (grupo de prédios de cinco andares).
Cada prédio era povoado por uma etnia diferente. Tinha a torre dos Melons (árabes), dos Portos (portugueses) e dos Ritals (italianos). O meu pai era recebido como o messias quando entrava na casa dessas pessoas. Cada apartamento, cada família que visitávamos era um choque cultural violento. Por mais que essas pessoas vivessem na mesma cidade, cada casa era um pedaço de sua respectiva cultura. Cada etnia que visitávamos nos recebia diferentemente. Tinha uma coisa que se repetia em cada casa; as mães de família faziam questão que o meu pai levasse para casa uma “quentinha” de alguma comida, especialidades delas. O meu pai fazia questão de levar e, com certeza, foi assim que meus irmãos e eu tivemos nossos paladares especialmente aguçados para a gastronomia, que para nós era exótica.
Num desses conjuntos habitacionais, La Citée des 2000, a maioria dos habitantes era composta por italianos. Toda vez que nós íamos lá, eu era recebido como se fosse um filho. Povo latino muito barulhento. As “mamas” falavam muito. Confesso que no início me surpreendia, mas depois me acostumei rapidamente. A família Degani era a minha preferida, também porque fiquei amigo do filho, Rocco. O pai era sapateiro, e foi ele quem nos ensinou – a meu pai e a mim – o segredo de cuidar dos sapatos. Uma ciência que estou transmitindo hoje aos meus filhos.
Quando chegava na citées eu encontrava o Rocco, sempre no mesmo lugar, sentado na escada embaixo do seu prédio. As suas irmãs cuidavam dele e de mim quando estávamos juntos. Uma delícia para quem não sabia o que era ter uma irmã mais velha.
Depois de alguns anos nós nos mudamos. O meu pai foi trabalhar em Paris, e nunca mais encontrei a família Degani, e nem o Rocco. Hoje, a Citée Des 2000 é um dos palcos dos enormes problemas que a França encontra em suas periferias, que continuam sendo os guetos da imigração. A diferença é que hoje os moradores são os filhos e, muitas vezes, os netos das pessoas que meu pai curava. Já são franceses de duas gerações e moradores dos guetos da periferia.
É por estas razões, e algumas outras, que até hoje nunca me senti um imigrante no Brasil. Eu, não só fui generosamente acolhido, como fui aceito e reconhecido pela sociedade. Estou feliz com este exercício de hoje, que me fez voltar a esta época.
Obrigado por esta oportunidade de vasculhar a minha memória e viver novamente estes momentos.
Eu agradeço e me sinto honrado de ser um imigrante. |
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