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Nessa altura da minha vida, meados de 1975, estava muito independente e revoltado com os meus pais e queria desfrutar, cada vez mais, a liberdade que havia encontrado em minhas fugas noturnas.

Estava vivendo aventuras inimagináveis para a minha idade, algumas perigosas, outras encantadoras.

Eram tantos os riscos que assumia puxando o rabo do diabo, que algum dia a corda haveria de se romper: o inevitável aconteceu.

Estava no meio do ano escolar, quando tomei uma semana de suspensão da Maitrise de Montmatre.

Havia brigado no pátio da escola, hora do recreio, porque um colega de internato havia me chamado de “bougnoule”.

A palavra injuriosa, pejorativa e racista, era uma ofensa muito comum na época e mexeu muito comigo.

A pesar minha mãe ser loira, de olhos azuis, tipo alemã, já que o seu pai era um graduado militar alemão (da Segunda Guerra), o meu pai, originário de Tours, vale do Rio Loire e de família materna nativa e com vários séculos na região, fazia correr em nossas veias sangue Maure, o que explica essa agressão de cunho racial.

Minha pele morena e cabelo escuro, em contraste com meus irmãos Loïc e Heloise, loiros, criavam uma duvida sobre a minha origem exclusivamente francesa.

A independência da Argélia, ano 1962 e suas feridas mal cicatrizadas, havia provocado maciça imigração de milhares de famílias muçulmanas argelinas e de “Pieds Noirs”, colonos francês e judeu-frances sefarates de origem portuguesa e espanhola, criando uma forte rejeição contra imigrantes por parte da população Gaulesa, iniciando um movimento de extrema xenofobia que se instalou na França tradicional.

Todos que não tinham aparência nitidamente francêsa eram “Métèques”, aqueles que mudaram de residência, de país, com suas culturas e religiões.

Bougnoule e Bico, eram as duas injurias utilizadas para denegrir e humilhar quem era ou tinha aparência de ser árabe.

Sofria muito com isso.

Toda minha vida ate essa época sofri bulling na escola, como em casa, com Loïc, 13 anos, meu irmão mais novo. Ele, quando contrariado, com ódio nos olhos e veneno na boca, fazia jorrar essa palavra destruidora colocando claramente em duvida minha legitimidade familiar.

Por incrível que pareça, já sofri de preconceito e racismo.

Todas as minhas brigas na escola e com meu irmão partiam dessas investidas e, nesse dia, no pátio do recreio, Provencel, o menino com quem eu briguei, me cuspiu essa palavra que me afetava profundamente.

Nos internatos, desde 8 anos de idade, tinha desenvolvido um instinto de defesa e sobrevivência que eram bem amadurecidos.

Estraguei o rapaz e isso me valeu uma semana de suspensão, supostamente na casa do meu pai.

A oficialização do “castigo” para os pais, era feita por intermédio do caderno de correspondência que entregávamos a eles para assinar nos finais de semana.

Por esse sistema nossos pais tomavam conhecimento das notas e dos nossos resultados escolares como também dos comentários oficiais.

Desmotivado e frustrado pela minha vida com meu pai, impregnado pela minha liberdade roubada, decidi mentir e falsificar sua assinatura.

Na segunda feira sai de casa, como de costume, levando minha bolsa de roupas de troca por uma semana de internato e minha mochila escolar nas costas para descer a escada de Montmatre, que ligava a rue Cortot com a rue De La Bonne, e à direita ate chegar ao portão do pensionato.

A esquerda da escada, a rua mudava de nome e se chamava Saint Vincent.

Descendo por ela cheguei ao prédio do meu amigo David, na rue Caulaincourt (ver capitulo 13).

Na casa dele eu passei uma semana incrivelmente excitante. Pela primeira vez na minha vida, estive livre como o ar.

Para sobreviver nessa realidade efêmera, meu porquinho onde havia juntado minhas economias, não resistiu.

Após 5 dias de plena felicidade e bêbado de euforia, igual um potrinho solto no pasto depois de se ver livre do curral, tinha que voltar à realidade.

Na sexta feira, como sempre vinha fazendo todas as outras, meu pai deveria me pegar na saída da Maitrise, na calçada em frente do portão, com todos os outros pais, as 17:00.

Meia hora antes, me apresentei na portaria e driblei o porteiro alegando que estava indo entregar o meu boletim ao padre-diretor.

Ele me deixou entrar e escondido no banheiro do pátio, esperei o sino tocar, anunciando o fim das aulas. Quando ouvi o barulho dos alunos atravessando o pátio, sai do meu esconderijo e peguei o caminho da saída no meio deles (ver foto do pátio da escola no capitulo 14).

Encontrei o Dr Anquier na calçada me esperando, cigarro na boca e mãos no bolso do seu casaco de lã Loden.

Fingi muito bem, apesar da angustia de ver aparecer um professor enquanto estávamos lá.

Dei-lhe um beijo, ele me perguntou como eu estava e como tinha sido a semana.

Respondi vagamente e iniciei o movimento para sair da frente do portão e continuar caminhando rua abaixo ate a escada no inicio da rue Cortot e final da rue du Mont Cenis.

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Esse desenho complicado de ruas e escadas acontecia numa área de cem metros quadrados, não mais que isso. Quando iniciamos finalmente a caminhada ate nossa casa, meu sangue gelou de uma vez. Subindo a rua a passos largos vi o padre-diretor, 50 metros abaixo, bem na nossa frente e na mesma calçada.

O encontro era inevitável como também a gota de suor de medo que deslizou do meu couro cabeludo e desceu lentamente pela fossa temporal ate o pescoço.

– “Bonjour Monsieur Anquier!”, cumprimentou o Superior ao alcançar a gente: “ Olivier conseguiu se acalmar essa semana em casa?”

Meu pai o fixou de olhos arregalado e cheios de pontos de interrogação e perguntou:

– “como assim?”

– “O senhor me parece não saber que o seu filho foi exonerado do colégio por uma semana…” respondeu o padre com surpresa.

Quando soube da verdade, vi o rosto do meu pai se transformar e mudar de cor. O diretor o convidou para dar mais detalhes no seu escritório para onde seguimos em clima tenso.

Meu pai não esperou que voltássemos para casa.

Ali mesmo, na sala do diretor, me deu a última magistral surra que me aplicou em toda sua vida.

Doeu muito e a revolta soou como trovoada, a mesma trovoada da introdução da faixa Riders On The Storm, do álbum L.A Woman dos Doors.

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Uma banda já muito famosa que me foi apresentada pelos novos amigos que tinha feito nas andanças de uma semana em Paris e hospedado no quarto do amigo David Rebreiyant.

Desfrutem desse som ate a semana que vem. Voltarei com mais uma etapa da minha vida sequênciada pelas musicas que a pontuaram.

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Nessa foto de 1965 em La Courneuve, tenho 6 anos de idade e estou cercado dos meus amigos de infância, os únicos ate hoje próximos, Jerôme e Franck Charbit, Filhos de um casal de amigos judeus “Pieds Noirs” dos meus pais.

Veja e ouça o video:

#CAPÍTULO 18 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

Todo adolescente urbano sente nas suas pulsações a ânsia de frequentar casa noturnas.

Hoje é normal e bastante comum os pais darem aval aos filhos para o uso de carteira de identidade adulterada, que permitem entrar e se divertir nesses tipos de estabelecimentos.

Na minha geração isso era inconcebível.

A questão nem sequer era abordada.

O máximo permitido era ir a um aniversario dançante de colegas da escola… uma vez ou outra.

Não escapei dessa pulsão exacerbada pela intensa vida clandestina que eu levava durante as semanas de aulas, supostamente domiciliado no dormitório do internato de padres da “ Maitrise de Montmartre”, colégio que frequentava nesse ano de 1975.

Nos fins de semana que não íamos para Ronquerole, no Chateau Blanc dos Proust, (ver capitulo 11) quando o meu pai estava de plantão como anestesista na clinica do Landy, ficávamos em Paris, rue Cortot.

Durante a semana, todas as noites eu fugia do pensionato que ficava a uma escada de Montmartre, casa do meu pai, e encontrava meu amigo de colégio David Rebreyant no seu quarto, que havia sido da empregada e foi revitalizado como quarto de jovem filho único de pais liberais, no ultimo andar do prédio aonde eles moravam.

A partir dali saiamos e passávamos a noite toda circulando por Montmartre e seus arredores (ver capitulo 14 e 15).

Quando meu pai e eu ficávamos em Paris, os fins de semana eram intensos e carregados de adrenalina.

Eu que já podia ser considerado mestre em fugas noturnas do internato, acabei virando mestre de escapadas do Sábado a noite.

O desafio era sair no meio da noite do apartamento, sem acordar meu pai que roncava alto no seu quarto sem porta.

O quarto dele dava acesso direto ao corredor de entrada.

Passar por ali era um risco que valeria uma boa cena de filme.

A distribuição dos cômodos do apartamento partia de um longo corredor em L que, da porta de entrada pesada e blindada, passava em frente a cozinha , logo a esquerda.

Continuando cinco passos à frente, vinha o quarto dos meus irmãos (que vinham raramente) e mais adiante a sala de banho.

Em frente à porta de entrada, no final do corredor, em linha reta, tinha a sala media, com mesa de jantar e quatro cadeiras.

Mais que jantares, essa mesa era usada como escritório, pois ficava encostada na parede que separava o quarto do corredor.

Protegida, estava a cama dupla do meu pai, invariavelmente coberta de uma colcha improvisada, um antigo Pancho peruano preto e vermelho de Alpaca, bonito, mas duro, abrasivo e pouco convidativo.

Todo o apartamento tinha assoalho de tábua corrida e barulhenta, rangia a cada passo por mais leve que fosse.

O quarto do meu pai e meu eram cobertos de tapetes que abafavam um pouco o ruído do assoalho.

Assim, fugir à noite significava conhecer perfeitamente os pontos de passagem aonde os meus pês fizessem menos barulho.

Meu conhecimento prévio desse roteiro me ensinou os caminhos mais seguros.

Saia do meu quarto ate a frente do quarto do meu pai, de pernas abertas, um pé em cada lado do corredor, encostados ao máximo próximos da base das paredes, aonde a madeira era mais firme.

Menos rangidos e mais segurança para minhas fugas.

Nem tudo é perfeito, na curva, em L para o largo corredor central até a saída, a envergadura das minhas pernas não permitiam a mesma técnica.

 

Ali eu tinha que ficar encostado na parede do lado direito, andando de perfil , como um Egypt.

O espaço dos meus pés,tinham que permanecer bem alinhados na borda e chegar assim ate a porta de entrada/saída da casa.

Esse périplo para atravessar o corredor, que demorava intermináveis vinte minutos, ganhava um agravante.

Exigia que eu sequenciasse os meus passos ao ronco do meu pai.

Cada passo era efetuado em sintonia com as tremendas inspirações sonoras da sua respiração, partindo do princípio que, o barulho que ele mesmo produzia roncando, coincidia e escondia os gemidos do assoalho.

Essas fugas significavam noitadas no Gibus Club, rue du Faubourg du Temple, a uma quadra da Praça de la République, uma instituição do Rock em Paris.

Essa casa noturna era escondida entre as arcadas atrás do portão de um prédio antigo.

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Templo do rock, sujo e grosseiro, ali se apresentava as melhores bandas nacionais e internacionais underground.

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Tive o imenso privilegio de ver, muito de perto, bandas importantes como MC5, o precursor do Hard Rock; Sex Pistols; Johnny Thunders; Patti Smith; J Geils Band; Dr Feel Good.

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E muitos outros nessa atmosfera quente, carregada de cheiro rançoso do local, da mistura de suor, tabaco frio e cerveja derramada impregnada nas paredes e no mobiliário de veludo velho.

Predominava ali o preto lustroso pelo tempo, tudo envolvido pela permanente suspensão de fumaça de cigarro.

Voltava para casa pelo mesmo caminho que tinha saído depois das quatro da manhã, completamente extenuado mas entusiasmado pela noite infratora e rica em emoções.

Meu pai nunca soube, mesmo quando me tornei adulto.

Até o dia de seu falecimento, não tive oportunidade de lhe contar.

Gostaria de tê-lo feito, certamente teríamos nos divertido juntos dessas passagens.

Décadas depois, nos final dos anos 90, o Gibus virou “Favela Chic” a famosíssima casa noturna brasileira em Paris que também hoje não existe mais.

Termino este capitulo com Dr FeelGood e o titulo “Because Your Mine” que vi duas vez tocar no Gibus Club.

Uma das melhores bandas que acompanhei neste inferno do Rock.

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Semana que vem, tem mais com a minha saída definitiva e para sempre da escola, do internato e da vida confortável de filho de médico.

#CAPÍTULO 17 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

No apartamento do meu pai, no terceiro andar do predinho de tijolos do número 3 da Rua Cortot, o meu quarto ficava com a janela para rua, de frente o Museo de Montmartre.

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Eu tinha, para mim, um espaço de 12 metros quadrados enchidos pela minha cama que era a mesma na qual eu dormia com a minha bisavó em Champauger (ver capitulo 7).

Antiga e de madeira ela ficava paralelo, encostada na parede pintada de bege claro.

Em cima dela eu tinha esticado e colado com fita adesiva um cartaz ativista contra a guerra do Vietnã comprado no famoso Mercado das Pulgas da Porte de Clignancourt, que, em negativo sobre fundo branco, representava a silhueta de um soldado americano em pleno assalto sendo atingindo no peito por um tiro de inimigo vietnamita.

O impacto da bala parou sua corrida guerreira, seu tronco e cabeça se dobrando para tras, os braços para cima seguindo o mesmo movimento enquanto ele largava o seu fuzil.

Na parte de baixo do cartaz estava escrito a palavra WHY em caracteres grossos e preto.

Eu não era tão politizado assim não nessa época mas, como as calcas Jeans, os tênis e o quadrado de seda com estampa da índia em volta do pescoço, ser pacifista fazia parte da panóplia dos jovens metidos a rebelde nesse meio dos anos 70.

De frente da minha cama, o meu quarto era iluminado por uma porta-janela dupla que davam para uma sacada tão estreita que mal cabia o meu pé que esbarrava na grade de ferro forjado pintado de preto.

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No chão, de cada lado deste grande retângulo de luz, tinha colocado as sobreviventes caixas de som Keff Coral ligadas a vitrola Thorens TD 124 que, na separação dos bens do casal, ficou com meu pai e acabou no meu quarto (ver capitulo 1). Com todas as minhas aventuras e vivências dessa fase de vida, estava em plena ebulição e a música tinha uma grande importância.

 Eu adorava ouvir a música com o deamer do amplificador entuchado até o máximo.

Tenho lembrança de estar sozinho em casa numa tarde ensolarada de primavera, na certeza que não corria o risco do meu pai aparecer, eu a escutar Genesis “The Lamb Lies Down On Broadway” em alto volume e de janela aberta acompanhar a canção aos berros.

O som que saia da janela do meu quarto era tão alto que batia na parede do Museo de Montmartre, do outro lado da estreitíssima Rua Cortot, fazendo efeito de caixa de ressonância em toda rua.

Ninguém nunca reclamou, no máximo alguns turistas estupefatos ficaram olhando para cima, não sem um sorriso cúmplice se desenhando nos seus rostos ao me ver cantando e gesticulando a cabeça na sacada da janela.

Anedota de um adolescente eufórico.

Quanto ao cartaz do soldado que me vigia enquanto eu dormia, ele teve um fim fatal no dia em que o meu pai estava particularmente irritado comigo, por um motivo a muito tempo esquecido e arrancou violentamente o pedaço de papel da minha parede e, num tom furioso me perguntou se tinha ideia do significado da guerra e do grande respeito que se tinha de ter dela.

É verdade que o meu avô e bisavô eram militares e que em 1945 o meu pai tirou sua irmã, Tia Nicole (Dona do molho do meu restaurante L’Entrecote D’Olivier), dos escombros da casa da família que tinha acabado de ser destruída pelos bombardeiros americanos que largaram suas bombas em cima da cidade de Tours.

Inclusive fico ate hoje me perguntando como que ele tinha me autorizado a colocar este cartaz na parede do meu quarto por tanto tempo antes dele se revoltar.

A realidade da guerra eram bem concretas para ele.

Neste capítulo a minha história da música traz essa anedota e esse álbum de Genesis com a faixa The Lamb Lies Down On Broadway.

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Semana que vem, a continuação nas minhas peripécias na Rua Cortot, quando morava ai com o meu pai. Se preparem, será picante.

#CAPÍTULO 16 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

De noite, depois de ter fugido do internato e quando todos os meus camaradas de dormitório estavam dormindo, ter encontrado o David no seu quarto e ouvir música, contando um monte de histórias e elaborando planos de adolescentes sonhadores, saiamos para rua.

Primeira parada era um velho e típico bistrô popular parisiense do baixo Montmartre, rua Lamark, a duas quadras do seu prédio, onde ele era conhecido como o lobo branco, por ser um bom parceiro de pimbolin. Descolado, David era bastante respeitado como jogador, sempre convidado para formar dupla e brigar partidas com adultos. Não demorou muito para eu aprender a ser o goleiro e “oficializar” a nossa dupla. Depois de algumas partidas e uns 2 ou 3 diabolos/Menthe – um xarope de menta sem álcool misturado com limonada, um refrigerante similar a H2O – oferecido pelo patrão ou a dupla vencida no pimbolim, íamos ate a Basílica do Sacré- Coeur, subindo a Av. Junot, para alcançar a rua Le Pic que, continuando subindo, nos levava atá a Place du Tertre, famosa pracinha boêmia e super turística que ficava animada até altas horas da noite.

Place du Tertre - Paris (France)

Na esquina da praça havia um bistro-café chamado “Le Clairon Des Chasseurs”, muito antigo cujo terraço-sala coberto era fechado pela rua por uma vidraça. Toda noite havia uns trios diferentes de guitarristas que tocavam Jazz Manouche, tipo Django Rheinardt.

Esses artistas Ciganos tocavam a exaustão em duo de guitarristas que se revezam e acompanhados de uma baterista que dava o ritmo, batendo e raspando uma prancha de lava roupa de lata com a ponta dos dedos calçados de dados de costurar, também de metal, para uma plateia de Parisienses e turistas aficionados que frequentavam esse café-bistro só para ouvi-los. O palco, minúsculo, estava encostado na vidraça e os músicos cercados de 3 amplificadores, as válvulas tocavam de frente para as mesas, de costa para rua.

Foto 2, ficavamos do lado de fora do cafe, de pê entre as mesas, o nariz colados no vidro na lateral esquerda.

David e eu ficávamos ai parados, bem pertinho deles, o nariz colado no vidro gelado que vibravam com a música. Também colado no vidro, mais do lado interno estavam duas pequenas ventosas de borracha que esticava uma cordinha, tipo varal de roupa com grampos de madeira aonde os clientes entusiasmados se levantavam para prender notas de 10, 20 ou ate mesmo 100 Francos que ficavam ai, penduradas. Imagem, cena e ritmos inesquecíveis.

Foto 1 Jazz-Manouche

Eles paravam de tocar às 2:30 da manhã e continuávamos nossa herança noturna até as largas e generosas escadas de frente a Basílica do Sacré Coeur aonde nós se juntávamos a outros grupos de músicos, dessa vez, bichos grilo e suas cortes, que passavam a noite, ai, em grupinho. Após meses ao frequentar e seguir esse mesmos caminho noite após noite, durante os dias da semana supostamente dormindo no internato, nos éramos íntimos de todos eles, ver mesmo, já que do bairro, éramos os donos do pedaço, anfitrião da escada para os turistas que viam engrossar os enxame de jovens, semi deitados nas escadas, olhando para o céu e trocando altas ideias. Quando chovia o roteiro era diferente; David e eu descíamos até Pigale e ai, era outras historias.

A minha entrada na descoberta e apreciação do jazz na minha evolução musical iniciou nessas noites deliciosas “Montmartreziana”. Dai para frente, por mais que o Rock tenha predominado na minha vida de adolescente e depois de jovem homem, sempre teve um espaço para o jazz, um caminho da minha historia que tomaremos uma pouco mais adiante. Enquanto isso, hoje lhe proponho conhecer Django Rheinardt e seu “Jazz Manouche”, um gênero musical interpretado por verdadeiros e geniais artistas ciganos. Achei interessante indicar esse pequeno documentário sobre a vida de Django que permite entender a origem desse estilo de jazz e ver como a minha historia se casa perfeitamente com a realidade. Ver as imagem animadas, em preto e branco do meu bairro, como ele era na época, me deu muito prazer e nostalgia de uma adolescência diferente.

https://www.youtube.com/watch?v=PQhTpgicdx4

Coquette – Potzi, Ninine Garcia, Donald MacLennan : http://youtu.be/n5VbMJlL67Q

#CAPÍTULO 15 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

O David era de uma série acima da minha, então um ano mais velho. Ele berrava os 17 anos, quando eu estava perto dos 16. Pela minha vida longe da família, uma vida torturada e sempre em internato, eu era muito mais maduro e preparado para a vida e convívio em sociedade. Meu jeito, minhas experiências e minhas atitudes eram mais desenvolvidas, o que me permitia um passe livre no grupo dos maiores, na hora do recreio. Foi assim que se instalou a amizade com David: loucão, gente boa e descolado, filho único mimado, ele era completamente livre para ir e vir do seu quarto para rua sem ter que pedir ou avisar alguém. Se eu tinha ficado alucinado com essa liberdade do Stephane Proust, isso se amplificou com o contato próximo com o David, meu amigo de escola e de bairro. Os dois exacerbaram em mim o espírito de aventura e transgressão.

Fugia de noite e voltava no internato da Maitrise de Montmartre de madrugada, pelo mesmo caminho e do mesmo jeito que percorri para sair. Quando abria a porta do dormitório, por volta das 6:00 da manhã, era acolhido por uma nuvem invisível, quente e carregada do sono dos meus camaradas. Na penumbra, de sapato na mão e deitado no chão, eu me arrastava silenciosamente até minha cama, ao som da sinfonia aveludada das respirações. Entrava embaixo das minhas cobertas, tirava as minhas roupas e dormia por menos de uma hora, até as 7:00 da manhã, quando o supervisor saia do seu quarto de vidro, acendendo todas as luz e batendo as mãos gritando “debout, debout!” até chegar as imensas cortinas de tecido pesado que ele abria com gestos amplos e fortes. Inútil comentar que passava o dia dormindo em sala de aula, confortavelmente e bem instalado no fundo da sala, do lado do aquecedor. Nunca me pegaram, mas mesmo assim era inevitável que as consequências das minhas escapadas noturnas me levassem a ter repercussão nos meus resultados escolar, como no meu comportamento.

Capítulo 14

Nessa foto que acompanha esse capítulo, estamos no pátio do recreio do internato. Podem ver exatamente o telhado de cobertura e em cima a paredinha coberta de trepadeira que eu pulava a noite e cair atrás, três metros abaixo, na ruela de residência dos padres que dava para a rua, logo atrás da Basílica do Sacré Coeur. Minha rota de fuga noturna.

Quando chegava no prédio do David, com um código que destravava o pesado portão que dava para rua, entrava e pegava a escada de serviço situada no fundo do prédio. Não tinha elevador e subia os 8 andares a pé, a única ligação com o antigo quarto de empregado onde seus pais tinham instalado o seu quarto. No apartamento dos seus pais, que ficava dois andares abaixo, na parte nobre do edifício, ele só atravessava durante o dia para comer e deixar as suas roupas para lavar. Ao contrário, seus pais nunca subiam até o quarto dele. O sonho de qualquer adolescente até hoje.

Primeira coisa que fazíamos quando chegava por volta das 21:30 era escutar vinil de bandas de rock no seu quarto (ver capitulo 8) fumando cigarros (foram os meus primeiros). Iniciei esse vício fumando o que ele fumava, ou melhor, as Craven- a que seu pai fumava. Uma marca de cigarro inglesa muito forte, vendido em lindíssimas caixinhas achatadas, estampadas de vermelho e no seu centro um medalhão branco com a marca e em cima o desenho de um gato preto (Olhem a foto!).

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Ele me fez descobrir The J Geils Band, Jethro tull, America, Jackson Browne e muitas outras bandas de rock. Essa semana vou apresentar uma das minhas preferidas que o meu amigo Davi me fez descobrir e que ouço até hoje, Lynyrd Skynyrd, uma banda do sul dos Estados Unidos cujo parte dos integrante morreram em acidente de avião em 1977 no Mississipi. Vamos escutar uma faixa Simple Man do vinil “Pronounced Leh-Nerd Shin-Nerd”.

#CAPÍTULO 14 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

No século XIX, Napoleão designou o Barão de Haussmann o “artista demolidor” para redesenhar Paris, sob o pretexto de modernizar e embelezá-la, mas também na intenção de eliminar as barricadas dos movimentos revolucionários que envenenavam a vida política da época. Essa obra faraônica teve como objetivo eliminar bairro antigos e populares do centro da cidade, destruindo a mixidade social, e construindo largas avenidas e bulevares bordadas de prédios majestosos e inconfundíveis da cidade Luz. A partir do famoso Arco de Triumph, as 12 avenidas: Champs Elysées, Wagram, Foch, Hoch, Friedlande, Iena, Grande Armée, Victor Hugo, Mac-Mahon, Carnot, Marceau, Kleber, compunham as pontas da estrela da Praça Charles de Gaule Étoile, que concretiza perfeitamente a eficácia dessa urbanização executada no segundo Império. O estilo arquitetônico desses edifícios ganhou o nome de “Haussmaniano”, residências da opulenta burguesia da época.
Os edifícios abrigavam uma dúzia de grandes apartamentos lindos e luxuosos, onde cada apartamento possuía cave individual no subsolo e no último andar, em baixo do telhado de ardósia; quartinhos de 9 a 12 metros quadrados para as empregadas que trabalhavam a serviço dos endinheirados moradores. Até os anos 40, se o estilo das construções mudou, esses quartos de empregadas sempre estiveram presente nos projetos.
Foi no decorrer dos anos 50/60 que o custo da vida, as reformas trabalhistas e sociais francesa ajudaram a eliminar uma categoria muito importante de trabalhadoras domésticas: as babas e as faxineiras. Por claras razões econômicas, cada vez menos as famílias de Bourguese Parisiens tinham condições de sustentar faxineiras em tempo integral para cuidar das suas casas e apartamentos gigantes. Realidade que está também cada vez mais concreta hoje em dia no Brasil.
Pouco a pouco, ao longo das décadas, os quartos de empregadas se transformaram em depósitos de coisas. Em alguns casos eram alugados pelos proprietários a estudantes de passagem em Paris ou servia de quarto independente para os seus filhos primogênito.
Na Maitrise de Montmartre, o Internato de padre onde meu pai tinha me colocado em 1975, fiquei muito amigo de David Rebreyand, aluno da minha sala que, contrariamente a mim, voltava para sua casa todos os dias. Ele morava em um prédio antigo no 42 da rue Caulaincourt, no pê da Butte Montmartre, a dois passos do colégio. Seu pai era um rico editor parisiense que tinha oferecido a David, seu filho único, esse quartinho para ele morar e ser independente.
Escolarização religiosa e severa em internato distantes longe da família, desde minha infância até a adolescência; amargura e sentimento de injustiça a flor da pele; obrigação e “instinto de sobrevivência” se encarregaram de plantar em mim a semente da autonomia e da independência que o tempo e as circunstâncias se encarregaram de regar até chegar a decisão de segurar o meu destino na palma da minha própria mão.
Tudo começou assim: no meio do primeiro ano como aluno interno, raramente eu passava a noite inteira no dormitório da Maitrise; eu fazia “le mure” (expressão que veio dos militares que fugiam das casernas). Éramos mais de 30 adolescentes internos nessa escola e, após o banho de gato que fazíamos na sala de banho comum do dormitório, às 8:30 da noite, o supervisor apagava as luzes e depois de três idas e voltas guiado pela sua lanterna no meio dos corredores formados pelas nossas camas, ele se trancava no seu quartinho cercado de vidros e plantado no meio da gente. Quando ele fechava as suas cortinas e que se apagavam suas luzas, eu esperava um tempo, que me parecia horas, para me levantar com muito cuidado e sem fazer barulho para não acordar ninguém. Eu me vestia bem devagarzinho, sempre deitado na minha cama, em baixo das cobertas. Quando estava pronto, esperava mais um pouco para me certificar que ninguém tinha percebido nada e que todos estavam dormindo profundamente, para aí deslizar da minha cama para o chão e, tal qual um militar em campo de batalha, me arrastava até a porta que dava para o corredor de saída. As primeiras vezes eu tremia e ficava com muito medo. Com o tempo e a repetição sistemática acabou virando rotina. Uma vez no corredor, ascendia a minha própria lanterna e chegava até a escada que dois andares abaixo me levaria até a porta que dava para ária de recreio da escola. Atravessava o quadrado ao ar livre até o fundo, onde tinha o abrigo coberto e onde a gente ficava nos dias de chuva. Ali eu subia pela lateral até o telhado e pulava 3 metro a baixo, na rua particular das residências dos padres, que por sua vez dava para a rua logo atrás da Basílica du Sacré Coeur.
Eu pratiquei esse caminho de fuga muitas vezes com a autorização do supervisor, quando a bola de football passava por cima do telhado na hora do recreio e que tinha que fazer esta escalada para ir buscar a bola de volta. Eu sempre me encarregava dessa função e foi assim que balizei a minha rota. Uma vez na rua, eu ia direito ao prédio do David: a noite era uma criança.
Livre como o ar, fazíamos mil e uma excursões no bairro tradicionalmente bohême, da rua Lepic até a praça des Abesses e descíamos até o depravado Pigale logo mais em baixo. Noite longas, agitadas e inesquecíveis e o som que era a nossa trilha sonora era Eric Burdon Declares “War”: Tobacco Road.
https://www.youtube.com/watch?v=Ig4jQrofnBI

1970
Essa foto minha é de 1970- ano deste álbum. Eu tinha 10 anos e roía as minhas unhas até o sangue, como podem ver focando no meu polegar. Infelizmente a partir de 1975, ano do início dessa aventura, a minha vida era tão conturbada que não tenho mais foto minhas. Só anos depois voltarei a ter imagem pessoas.

#CAPÍTULO 13 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

Há alguns anos eu comprei um terreno no Vale do Paraíba – uma região de história rica, que viveu a opulência do ciclo do café, seguida da decadência retratada de forma brilhante pelo escritor Monteiro Lobato. Me encantei pelo local e arrematei umas ruínas que havia perto dali e, sobre elas, reergui um casarão para ser meu local de descanso e também a cozinha-estúdio onde gravaria meu programa de TV.

Escrevo para contextualizar a construção do meu fogão a lenha. Eu sempre quis ter um e aquela seria minha grande oportunidade. Só que eu não me contentava com nenhum daqueles que via no mercado e, então, resolvi projetar um do jeito que eu queria.

Cozinha

Se você assiste ao meu programa Diário do Olivier, no GNT, você conhece meu fogão e sabe do que estou falando. A bancada – parte fria do fogão – é coberta por uma réplica de cerâmica da época colonial e tem bastante espaço para manipulação de ingredientes.

Outro detalhe fundamental: com dó da minha coluna, eu fixei o fogão sobre um pedestal, de forma que eu tivesse meu espaço para os meus pés e não precisasse ficar debruçado sobre as panelas.

Na extremidade oposta à da entrada da lenha, há um forno. Novamente fugindo do convencional, preferi uma caixa de aço escovado ao invés dos tijolos refratários, com os quais eu revesti a parte externa do forno.

E para juntar tudo isso, uma dica preciosa da turma do campo: a massa corrida à base de cimento leva açúcar na receita! É para que a emenda não rache com o calor.

Fogão Olivier

Já a parte quente conta com uma chapa pra lá de especial. Os fogões a lenha convencionais costumam ter uma chapa fina, com cerca de 1 cm de espessura. Além de dissipar o calor de forma muito rápida, esta chapa acaba envergando com o tempo. Por isso, encomendei uma, de ferro fundido como a outra, só que com cinco vezes a espessura normal.

E já que meu fogão seria mais largo, projetei também um comprimento maior que o normal. Para se adaptar aos 2 metros de extensão, a chapa precisou ser dividida em duas partes que se encaixam. Nessa ampla chapa, com espaço para quatro bocas, eu consigo diversas regiões de temperatura, o que me permite, ao mesmo tempo, manter um prato aquecido e fazer uma grande fritura, por exemplo.

Abaixo, a planta do projeto.

Arquivo Fogão

Arquivo Fogão 2

Meu fogão a lenha

Acabei encontrando duas fotos que ilustram muito bem o que escrevi no post da semana passada, quando dizia que os códigos de vestimentas da juventude da época!

Foto 2

Era o início do uso de tênis no cotidiano, calças jeans e camisa xadrez, além do lenço de seda da índia que não tirávamos por nada do nosso pescoço. Nessa foto sozinho não tenho o lenço, mas o Stephane que esta comigo na segunda foto estava com o acessório indispensável.

Foto 1

Inclusive, o Stephane Proust parece mais jovem que eu, quando de fato tinha dois anos a mais. Essa sensação se deve ao fato da mãe dele, Claude Proust, ser Vietnamita e a mistura de sangue Euro-asiático lhe deu traço mais finos e delicados, o deixando aparentemente mais jovem. Hoje o processo se inverteu e com 57 anos, ele parece muito mais velho e marcado do que eu com 55.

Stef, diminutivo do seu nome como costumávamos chamá-lo, me introduziu de forma definitiva no mundo da música, mas também do cigarro. Fumar era uma maneira de se afirmar, de se dar compostura, era da moda, nos dava a ideia que éramos adultos, fortes. Tudo mundo fumava nessa época, inclusive o meu pai e a minha mãe. Claro que fumávamos a escondida, trancados no quarto e, por incrível que pareça, um território onde nenhum pai aparecia. É verdade também que o “Chateau Blanc” era muito grande, com muitas escadas compridas e íngremes para chegar ate a asa oeste do castelinho, onde toda garotada ficava. Essa construção muito antiga do XIIV século; era muito apropriada para imaginação de adolescentes tentando descobrir a vida nessa casa, há séculos atrás. Dai a falar em fantasma e espíritos era um pulo que fazíamos.

De noite, a gente acendia velas e bastão de essência, e nessa penumbra, ouvíamos o disco 666! Disco bastante raro e que tenho até hoje da banda Grega Afrodite’s Child. A banda foi formada pelo vocalista Demis Roussos e contava com o gênio multi-instrumentalista Vangelis Papathanassiou. Quando gravaram esse álbum, a banda estava muito desgastada, nem se conversavam entre si e, por incrível que parece, durante a gravação, no estúdio, foi só iniciar a tocar para que todas as discordâncias se evaporaram. O tempo de imortalizar neste álbum uma das melhores obras dessa banda. Pouco tempo depois a banda se desfez e o vocalista da banda acabou tendo uma carreira solo de muito sucesso na França, cantando em francês. Perdeu toda graça, apesar de reconhecer que era um grande artista com uma voz muito particular e bonita.

Foto 3

Encontrei a gravação e as letras do álbum inteiro no Youtube. É muito impressionante a força criativa e musical dessa improvável banda de grega. Vale a pena ouvir.

https://www.youtube.com/watch?v=FATe8MpEpO4

#OsDiscosnaHistóriadoOlivier

#CAPÍTULO 12 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

Após a separação definitiva dos meus pais, a família e tudo que tinha sido construído foram para água baixo. Eu via meus irmãos de quinze em quinze dias, no fim de semana. Mas com ou sem eles, sistematicamente o meu pai me esperava na rua, na sexta-feira no final da tarde, na saída do meu internato e me levava passar o fim de semana no interior no lindíssimo castelinho chamado de “Chateau Blanc” do Dr. Gabriel Proust, amigo de prima infância do meu pai e anestesista também.
Claude e Gabriel Proust tinham três filhos: o Stephane com 17 anos, Sylvain 15, como eu, e Isabelle de 13 anos. Ela era uma menina dona de uma beleza estonteante, muito doce. Tocava piano e tinha cheiro de rosa.
Eu era apaixonado por ela. Foi quando pedi para tomar aula de piano, no sábado, só para estar com ela mais próximo. Suei muito com a minhas subidas hormonais de adolescente, inesquecíveis para sempre. (Será que os jovens de hoje vivem essas sensações?).
Stephane, o irmão maior, era o líder da turma. Apaixonado por eletrônica, ele mesmo construiu sua vitrola, seu amplificador e sua caixa de som, que eram feitos de gesso moldado em uma bola de basquete. Muito próximo dele, várias vezes eu foi com ele para Paris, na garupa da sua moto, uma Suzuki 125 GT. Íamos até a rue du Faubourg du Temple, bairro das lojas especializadas para comprar material eletrônico especifico para Hi Fi (como a Santa Efigênia em São Paulo). Eu não entendia nada desses componentes eletrônicos em formato de pastilhas e outros cilindros coloridos parecendo mini balas ‘Jellybeans’ expostos em caixinhas a mostras de baixo do vidro do balcão de atendimento. Ficava simplesmente fascinado e impressionado com o linguajar incompreensível que ele dispensava com os vendedores e, de volta para Ronquerolle, ele me convidava para o seu quarto, onde ele desentranhava seu amplificador e, com um ferro de solda, trocava ou adicionava os últimos componentes comprados para melhorar ainda mais a qualidade sonora do seu equipamento.
Era um grande privilégio ser recebido no quarto dele. Sempre meio em briga com seus irmãos, eu era o único dos adolescentes a ser aceito no seu território e universo. Nessa época era muito comum jovens da nossa idade ter uma caída pelo lado ‘bicho grilo’. Em 75 estávamos ainda em plena influência dos hippies do final dos anos 60. Os códigos de vestimentas eram calça Jeans Levis 501, camisas xadrez tipo lenhador canadense no inverno e de linho e algodão paquistanês no verão. Era também o início do uso de tênis no cotidiano e, indispensável para completar o look, o lenço de seda de estampa indiana no pescoço, que não se tirava por nada, nem mesmo para tomar banho. As meninas usavam o Patchuli como perfume.
Stephan Proust tinha amigos e namoradas lindas que vinham de Paris para visitá-lo e passar o fim de semana, uma novidade para mim. A noite, tudo mundo se encontrava no seu quarto. Jogados no chão coberto de almofadas, iniciavam-se longas conversas de adolescentes querendo mudar o mundo e claro, conversas encobertas pela música de alto nível. Essa liberdade e emancipação aparente de Stephane me atordoavam, para eu que passava a semana em meu pensionato cinza e austero na Maitrise de Montmartre.
Esse ano e meio compartilhando a família Proust no “Chateau Blanc” aguçou meu desejo de independência. Começava a brotar na minha cabeça a ideia de tirar reverência do meu pai e da minha vida “coxinha” de filho de médico e tudo que representava essa realidade. Nessa fase da minha vida, Stephane Proust foi o meu grande mentor musical, “philosophico” e grande professor da relação com as mulheres. Ele foi provavelmente, sem que ele soubesse, o grande incentivador da minha decisão a vir no final dos meus 16 anos: assumir definitivamente o meu destino longe do meu pai. Liberdade.
Esse período de final de 74 ate início de 76 foi muito intenso e importante para mim e o meu futuro. Esse período de vida vai precisar de 2 a 3 semanas de capítulos dessa minha história sobre a música, pois foi ali com Stephane e seus amigos que realmente tomei consciência do meu gosto musical, influenciado por essa turma.
A criatividade das bandas inglesas e Americanas era muito intensa e de grande qualidade, influenciando jovens bandas francesas de rock como Telephone, um genérico francês dos Rolling Stone que acabou ficar muito famoso por varias décadas.

Tele
Convido você a escutar essa faixa famosíssima dessa banda “Metro (c’est trop)” que foi o seu primeiro Hit.
Apertem o cinto que o negocio está forte e muito bom.  https://www.youtube.com/watch?v=bLoKngrTz94

Musica
Nessa foto que acompanha o post dessa semana, estou em Ronquerole com o meu pai, meu irmão Loîc, minha irmãzinha Heloise (lourinha pequena em primeiro plano) e do lado esquerdo, Isabelle Proust, uma das minhas primeiras paixões escondidas de adolescente.

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#CAPÍTULO 11 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

Julia

A divisão da família consumada. Meu pai e eu morávamos na rua Cortot (Paris), no topo da Butte Montmartre, em um apartamento alugado de três quartos. Essa é a mesma rua onde estou andando de costas com a minha filha nessa foto. Foi em 2010, numa viagem de retorno às raízes, e que virou alguns episódios do Diário do Olivier.

O apartamento ficava exatamente à nossa esquerda, naquele predinho de tijolos claros. Meu pai costumava estacionar sua moto no lugar das lixeiras verdes e seu fusca conversível amarelo, exatamente onde está o cachorrinho preto, em cima da calçada. Na época não havia os cubos de cimento, nem o postinho de metal, que foram colocados anos depois pela cidade de Paris para impedir as pessoas de fazerem exatamente o que meu pai fazia. Outra época…

Naquela época, eu estudava na Maîtrise de Montmartre, escola de padres situada logo atrás da Basílica do Sacré Coeur – a noventa e cinco metros e meio da casa do meu pai. A consciência da exatidão dessa medida de distância entre a escola e a casa do meu pai é simbólica e fundamental para entender a mudança que aconteceu comigo e com a minha vida daí pra frente.

A escola era um internato e para mim (mais um) quando imaginava, ou melhor, quando sonhava em ter uma vida melhor e, principalmente, mais perto dele.
Em setembro deste ano passei a minha primeira noite na Maîtrise, às 20h30 no apagar da luz, na escuridão do dormitório, estava enroscado nas minhas cobertas tentando esconder as lágrimas e os mugidos de amargura que reprimia por ter sido “traído” pelo meu pai, quando nessa mesma hora eu sabia que ele estava a “noventa e cinco metro e meio e dois lances de elevador de mim”, no quarto dele, sozinho, sentado no tapete, encostado na cama, sem sapato e de meias pretas fedorentas, assistindo ao jornal da noite na TV, tomando uma taça de vinho e fumando uma Gauloise sem filtro – um cigarro de tabaco escuro, forte e fedorento também. Eu sei porque era rotina.

Para ilustrar musicalmente essa cena, escolhi o fabuloso Frank Zappa e a faixa “Stink-Foot” (Chulê) do famoso álbum Apostrophe. Eu descobri o Zappa um ano depois de ter saído da escola, quando já tinha 16 anos. Não estou querendo queimar as etapas, mas a lembrança dessa cena me lembrou essa composição com característica de humor satírico e carregada de derisão desse gênio. Prestem atenção ao texto se tiverem bom em inglês. Vale pena entender as palavras. Quem não tem ainda o domínio da língua, preste atenção a particularidade performática da composição e no toque da guitarra do Frank Zappa.
Nas próximas semanas, continuo a história e anedotas dessa vida com meu pai e da invasão musical em minha vida!

https://www.youtube.com/watch?v=FF_zaRIPFpw
‪#‎osDiscosnaHistóriadoOlivier‬

#CAPÍTULO 10 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

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