#CAPÍTULO 7 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

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Terminei o meu segundo ano de primário em Boissy le Chatel, após dois anos vivido no campo na casa da minha avó. Minha mãe se cansou dos cavalos, do isolamento do campo, da distância com o meu pai. O ano era de 1968 quando eles decidiram mudar novamente de vida e voltamos a morar em Paris, em um apartamento de 300m² de um prédio no 44 rue Caulaincourt em Montmartre.

Para mim, em particular, era o início da jornada escolar em internato de jesuíta. Fiquei longos anos distante da minha família. Uma solidão que cultivou em mim o sentido de independência e autonomia. Tomei consciência muito cedo que somos Um no meio de muitos, desenvolvendo o instinto de sobrevivência e contra as nossas atitudes, para absorver os confrontos da vida em sociedade. Amadureci e me endureci. Quando nas férias voltava para casa dos meus pais e irmãos em Paris, percebia que eu vivia coisas diferentes, eu era diferente! Ouvia mais do que falava, era muito curioso e atento. A distância e ausência da minha família durante mais da metade do ano me ensinou a pensar sozinho.

Todo ano a ceia de Natal acontecia na casa da família, em Champauger – que por hora tinha virado minha casa de fim de semana, uma residência secundária. Por ser uma data festiva, o astral estava geralmente bom e, neste Natal de 1973, a minha tia Nicole e meus três primos marcaram presença na confraternização, um acontecimento raro. O meu tio Jacques era cônsul da França, hora estava no Panamá, hora em Tombuctu, hora na Bulgária ou em Theerá. Distanciamento profissional que explica a excepcionalidade desse Natal.

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A felicidade redobrou por minhas primas Isabela e Françoise e meu priminho Laurent de cinco anos estarem juntos conosco. Isabelle, como eu, era primogênita e tinha a mesma idade, 13 anos, quando a segunda Françoise tinha 10 anos, como o meu irmão Loïc… vocês podem ver melhor nas fotos!

Lá fora os campos estavam cobertos de neves e passávamos a maior parte do dia brincando na imensidão da campanha e da floresta, como fizeram os meus filhos ainda pouco tempo atrás, na nossa casa na serra da Bocaina… mas claro, sem neve.
Após o almoço, saíamos novamente como grandes aventureiros para abrir caminhos na neve virgem do manto branco dos pastos ao redor da casa. Como tradicionalmente na Europa, no inverno, a noite caia muito cedo, no meio da tarde. Quando a gente ouvia o grito dos corvos planeando para o último voo e se desenhando, majestosos e preto, em contrate no céu carregado e branco e quando a luminosidade do dia caia a ponto de poder perceber a pontinha da lâmpada da porta da cozinha da nossa casa, sabíamos que era hora de voltar.

De pé e com as mãos congeladas, mas feliz, nós tomávamos banhos todos juntos, em um chuveiro generoso e bem quente.
Até chegar a hora do jantar, ficávamos de pijama e na sala, de frente para lareira acesa, jogávamos legendárias partida de “Monopoly” e de “Tarro”, um jogo de baralho tipicamente francês.
Os adultos estavam todos ao lado, na cozinha, preparando a ceia: ostras, foix gras, salmão defumado, peru, torta de maçã, lebre no vinho tinto… só coisas deliciosas. Era uma fartura! Meu pai estava em plena ascensão profissional.

Na ocasião, minha mãe tinha trazido de Paris um disco que ela ganhou semana antes para seu aniversário no dia 12 de Dezembro. Gostou tanto que o levou para Champauger para esse Natal. Gostei também. Tanto que foi a primeira vez que eu me lembro de ter colocado um disco na vitrola e escolher uma faixa sozinho, sem perguntar.
Introvertido, eu me instalava no tapete, no meio das almofadas, bem pertinho da caixa de som. Deitado na barriga, com o queixo encaixado na palma das minhas mãos com apoio nos cotovelos, eu escutava “Dark Size Of The Moon” dos PinkFloyd, em particular a faixa “Money”. Achava sensacional o barulho da caixa registradora virar um som de uma composição musical. Da hora!
Acredito que já nessa época, eu estava claramente sensível a teclados e órgão de todo tipo em particular. O álbum que saiu em 1973 dos Pinkfloyd era extraordinário, como ele continua sendo hoje para a galera jovem e moderna – meu filho de 17 anos por exemplo.

Provavelmente a mais emocionante interpretação de rock-psicodelico, desde da existência do órgão sintetizado. Até hoje, quando ouço “Dark Size Of The Moon” sinto esse bem estar, essa felicidade e as efluas cheirosas da ceia de Natal.
Deixo você gozarem desta composição antológica do álbum Dark Side of the Moon: “Money”

https://www.youtube.com/watch?v=cpbbuaIA3Ds

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