#CAPÍTULO 6 – OS DISCOS NA HISTÓRIA DO OLIVIER

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Com sete anos, idade da razão e momento em que os anos são vividos com a intensidade de uma década, minha avó Christiane, mãe da minha mãe, faleceu e nos deixou sua casa como herança juntamente com minha bisavó Julia Cordellier.

Ao invés de trazer minha bisavó para nossa casa em Livry Gargand, nossa casa burguesa, minha mãe achou melhor que todo mundo migrasse para lá. A casa foi construída há três gerações, pelo meu tataravô. Ela ficava no meio dos campos de trigo, das florestas de carvalhos e aveleiras da região Brie (origem do queijo Brie), em Champauger, um pequeno distrito de 500 habitantes do município de Boissy Le Chatel, vilarejo onde eu e meu irmão Loic frequentamos a escola durante dos dois primeiros anos do primário.

A vida no campo foi maravilhosa e muito enriquecedora, inclusive pela convivência com minha bisavó, uma velhinha toda enrugada e magra, de cabelos sempre presos em um lenço de pano cinza claro, e vestida com saia de camponesas medievais coberta por um avental de pescoço preto ou azul marinho.

Ficamos lá durante dois anos. A propriedade era grande e minha bisavó cuidava da horta e do pomar com a mesma roupa que ela cozinhava, almoçava e jantava…rsrs Suas características eram muito do campo. Ela havia nascido nessa casa em 1893 e tinha 73 anos de idade quando fomos morar com ela, em 1966.

Dura e severa, ela gostava muito de mim por ser o primeiro bisneto. Ela me ensinou muitas coisas, inclusive a ler hora no relógio. Eu dormia toda noite na cama dela, até ela falecer, no hospital, quase um ano após termos invadido a casa.

Como nossa vida já estava organizada há quase um ano em Champauger, acabamos ficando por lá. Esses anos foram os únicos que vivi realmente em família, apesar do meu pai estar presente só aos finais de semana. Sua realidade profissional estava em Paris e arredores.

Olivier com cavalos

Enquanto isso, após a descoberta do seu dom por pintar em Livry Gardand, a minha mãe se apaixonou por cavalos. Naquela época, nós chegamos a ter oito cavalos na propriedade. Consequência desse mimo: em dias que não íamos à escola, éramos condenados a montar a cavalo para que todos pudessem, uma vez por semana, dar uma volta na campanha. A verdade é que nos primeiros meses era muito legal, mas depois virou uma chatice.

Vivíamos como camponeses nativos, todos os dias, hiberno nevoso e primavera com macieiras em flores. Íamos caminhando para a escola e percorríamos um trajeto de três quilômetros de campos de trigos arados, pastos e estrada.

Foi lá que eu e meu irmão Loic nos familiarizamos com a cozinha e o ato de cozinhar. Meu pai adorava cozinhar e, todo domingo, ele mesmo preparava o tradicional almoço dominical. A mão de obra pra descascar as batatas, o alho, sacar o feijão e as ervilhas das vagens era nosso. Um saco! Mas foi assim que nós adquirimos a intimidade e o prazer de cozinhar, uma herança do meu falecido pai.

As caixas de som Keff Coral e o toca-discos Thorens saíram do atelier de Livry Gargand, acompanharam a gente na mudança e foram instalados no nicho embaixo da escada que da cozinha, dava acesso aos quartos do segundo andar. Os 10 primeiros degraus faziam a divisória do fundo da sala de estar com a cozinha. Meus pais aproveitaram para arrumar esse canto confortavelmente com tapetes e almofadas do antigo atelier da minha mãe. Uma das paredes era a porta dupla de pequenos vidros quadrados que dava para o jardim e o gramado, que durante o verão ficava toda aberta. Dentro do nicho, embaixo da escada, em uma prateleira, foi instalado a vitrola e os discos e áudio K7. De baixo, no chão mesmo, estavam armazenados um tapete de pote de geleia.

Aos finais de semanas e nas férias de verão, em julho e agosto, os amigos parisienses dos meus pais vinham passar alguns dias conosco e montavam a cavalo. Anos felizes! No verão, o pomar dava muitos marmelos e ameixas, que pegávamos e minha mãe transformava em geleias maravilhosas. Ainda é nítido a lembrança da gente comendo de colher a espuma da geleia que minha mãe tirava de cima com uma grande espumadeira de cobre. Nossos dedos grudavam nas mãos.

Éramos felizes e a forte lembrança das músicas que ouvíamos nesses momentos eram eruditas. Sinfonias, óperas e principalmente concertos de piano de Mozart tocavam bem alto para que os convidados dos meus pais pudessem ouvir enquanto estavam do lado de fora, na sombra de um chorão, deitados na grama jogando scrabble, tomando vinho branco. Meu pai fumando Craven e minha mãe Gitane.
Foi a partir desses momentos de felicidade e união familiar que se imprimiu em mim o prazer em ouvir musica clássica.

Em memória desses tempos, escolhi o concerto por piano de Mozart #21 e #9. De chorar… e, para quem quer iniciar uma imersão nesse mundo maravilhoso da musica clássica, é um ótimo começo. Peguem um tempo de sossego e ouçam essa interpretação primorosa de Murray Perahia. Ouçam interinho.

Não deixam de ver e ouvir essa interpretação da japonesa Aimi Kobayashi. Comovente.

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